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Manualidades

Hoje falo de artes manuais e do seu benefício para o bem-estar.

Estamos em plena era digital, transportamos connosco, na mão ou no bolso, pequenos computadores ligados a outros tantos. Estamos sempre em rede, ainda que muitas vezes ausentes do lugar onde realmente estamos, como se vivêssemos em simultâneo várias realidades.

No outro dia li que o futuro será a implantação das funções do telemóvel no próprio corpo humano. Nada me espanta e tudo isto me assusta. A naturalidade com que nos entregámos ao digital, e a tudo o que de pior oferece, leva-me a segurar com as duas mãos a ponta extrema oposta deste novelo e a contagiar quem me rodeia com os benefícios e o prazer das artes manuais, do fazer lento com atenção ao pormenor e com a possibilidade de silêncio.

Desde 2017 que estudo encadernação de livros, restauro e conservação de documentos gráficos. E este caminho já me conduziu a outras artes que cruzo com a encadernação: a antotipia, a tipografia, a reciclagem de papel, o bordado, a estampagem, a serigrafia e o papel marmoreado. Tornei a encadernação uma das minhas profissões mas todas as formas de criar com as mãos, com ou sem a ajuda de máquinas manuais, têm a minha atenção. Estou certa de que quero continuar fazer parte do grupo de pessoas que convictamente salva estas artes do esquecimento e da desvalorização. O trabalho manual promove a capacidade de concentração, desenvolve a motricidade fina, fomenta novas ligações neuronais e pode ser muito relaxante. O famoso triângulo fisiológico ‘olhos-cérebro-mão’ a ligar o que vemos, o que pensamos e o que fazemos, sem nenhum intermediário.

Há uns meses tive uma criança aqui no ateliê que enquanto picotava e esperava a entrega de uma encomenda disse ‘aqui sinto paz’. Eu fiquei maravilhada, por um lado, e preocupada, por outro. O sossego está a perder-se e somos inundados com estimulações visuais e sonoras constantemente. Urge recuperar paz, silêncio, calma e tempo.

As manualidades beneficiam o corpo e a mente, permitem viver o tempo de forma menos frenética. No caso da encadernação: há um tempo para coser, há um tempo para furar, para dobrar e para cortar. Cada passo da tarefa deve ser cumprido com rigor e sem pressa, não se pode trapacear.

Sugiro a quem lê este texto que procure uma actividade manual e experimente algumas das sensações que aqui descrevo. Desde a culinária, à costura, à escrita à mão, à jardinagem, à olaria, à pintura, à colagem…enfim, são tantas as hipóteses e as oportunidades que seria uma enorme lástima passar por esta vida sem criar com as mãos, longe dos estímulos que nos aceleram a mente e desgastam o corpo. Pode ser tão prazeroso e tão benéfico a nível emocional, físico e cognitivo que pode-se correr o risco de querer-se fazer da manualidade profissão. Pois que que seja!

Com esta pequena nota sobre a maravilha que é o artesanato, despeço-me até ao próximo mês que já está aí à porta. Até lá continuo a dar sinais de vida pelas redes sociais ou pelo email hello@poema.pt.

Obrigada.

Andresa Olímpio

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